São Pedro Canísio
Parte Primeira — O Credo

Da Fé e do Símbolo da Fé

Capítulo I

1. O que se entende aqui por Fé, e qual a sua necessidade para a salvação.

[1] Visto que, nas Sagradas Escrituras, a palavra Fé tem diversos significados, tratamos aqui daquela pela qual assentimos inteiramente às coisas que foram divinamente transmitidas.

Que esta Fé seja necessária para alcançar a salvação, ninguém poderá, com razão, duvidar, sobretudo porque está escrito: “Sem fé é impossível agradar a Deus.”1

Com efeito, como o fim proposto ao homem para alcançar a bem-aventurança é mais elevado do que aquilo que pode ser percebido pela perspicácia da mente humana, era necessário que o homem recebesse do próprio Deus o conhecimento desse fim.

Ora, esse conhecimento nada mais é do que a Fé, cuja virtude faz com que tenhamos por certo aquilo que a autoridade da Santíssima Madre Igreja comprovou ter sido transmitido por Deus. Pois nenhuma dúvida pode ocorrer aos fiéis acerca das coisas das quais Deus é autor, Ele que é a própria Verdade.2

Daí compreendemos quanta diferença existe entre esta Fé que temos em Deus e aquela confiança que prestamos aos escritores das histórias humanas.

Embora a Fé tenha grande extensão e apresente diferenças quanto à grandeza e à dignidade — pois assim se lê nas Sagradas Escrituras: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”3 e: “Ó mulher, grande é a tua fé!”4 e: “Aumenta-nos a fé.”5 Igualmente: “A fé sem obras é morta”6 e: “A fé que obra pela caridade”7 — contudo, ela é a mesma quanto ao gênero, e aos diversos graus da Fé convêm a mesma força e a mesma razão de sua definição.

Quanto, porém, ela seja frutuosa e quanta utilidade dela recebamos, será dito na explicação dos artigos.


1) Hb 11, 6.
2) Jo 14, 6.
3) Mt 14, 31.
4) Mt 15, 28.
5) Lc 17, 5.
6) Tg 2, 20.26.
7) Gl 5, 6.

Nota marginal — disposição da obra: Deve-se começar pela doutrina da Fé. Primeira Parte: da Fé e do Símbolo da Fé.
Referência doutrinal marginal: a necessidade da Fé para alcançar a justificação e a salvação é tratada pelo Concílio de Trento, Sessão VI, Decreto sobre a Justificação, especialmente capítulos VI, VII e VIII.
Nota doutrinal marginal: a Fé católica, embora seja una, possui, segundo a condição das pessoas, diversos graus.

2. Quando e por que motivo estes doze capítulos da Fé foram transmitidos pelos Apóstolos.

[2] As primeiras coisas, portanto, que os homens cristãos devem professar são aquelas que os guias da Fé e mestres, os santos Apóstolos, inspirados pelo Espírito divino, distinguiram nos doze artigos do Símbolo.

Pois, tendo recebido do Senhor o mandamento8 de que, exercendo em seu nome o ofício de legados, partissem por todo o mundo9 e pregassem o Evangelho a toda criatura, julgaram conveniente compor uma fórmula da Fé cristã, para que todos professassem e dissessem a mesma coisa; e não houvesse cismas entre aqueles que haviam chamado à unidade da Fé, mas fossem perfeitos no mesmo espírito e no mesmo parecer.10


8) Mt 28, 20.
9) Mc 16, 15.
10) 1Cor 1, 10.

Nota sobre a referência 8: a margem desta edição indica expressamente Mt 28,20. O mandato missionário completo encontra-se em Mt 28,19-20: “Ide, pois, ensinai todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.” A referência foi mantida acima como se encontra impressa no original.

3. De onde vem o nome “Símbolo”.

[3] A esta profissão da Fé e esperança cristãs, composta por eles, os Apóstolos chamaram Símbolo: seja porque foi formada de diversas proposições, que cada um deles trouxe para o conjunto; seja porque dela se serviam como de um certo sinal e senha, por meio dos quais pudessem facilmente distinguir os desertores e os falsos irmãos introduzidos furtivamente11, que adulteravam o Evangelho, daqueles que se haviam obrigado pelo juramento da verdadeira milícia de Cristo.


11) Gl 2, 4.

Nota de tradução: o original diz verae Christi militiae Sacramento se obligarent. Aqui, sacramentum conserva o antigo sentido latino de juramento solene de fidelidade, especialmente o juramento militar. Por isso, neste contexto, não convém traduzi-lo por “Sacramento” no sentido dos sete Sacramentos da Igreja. A imagem empregada pelo Catecismo é a da milícia de Cristo: os verdadeiros cristãos estão ligados a Cristo por um juramento de fidelidade, em contraste com os “desertores”.

4. Qual seja a necessidade deste Símbolo, e em quantas partes se divide.

[4] Embora muitas coisas sejam propostas aos fiéis na religião cristã, acerca das quais, consideradas separadamente ou em conjunto, é necessário ter uma Fé certa e firme, há, antes de tudo, algo que todos devem necessariamente crer como fundamento e suma da verdade: aquilo que o próprio Deus nos ensinou acerca da unidade da essência divina, da distinção das três Pessoas e das operações que, por uma razão especial, lhes são atribuídas.

O Pároco ensinará que a doutrina deste mistério está brevemente compreendida no Símbolo dos Apóstolos. Pois, como observaram nossos maiores, que trataram piedosa e cuidadosamente deste assunto, o Símbolo parece estar dividido principalmente em três partes:

A essas proposições, por uma certa semelhança frequentemente empregada por nossos Padres, chamamos artigos. Com efeito, assim como os membros do corpo se distinguem pelas articulações, assim também, nesta profissão da Fé, tudo aquilo que deve ser crido por nós distinta e separadamente de outra coisa é, com propriedade e justeza, chamado artigo.


Nota doutrinal marginal: O cristão deve crer principalmente que Deus é Uno e Trino. As três partes do Símbolo dos Apóstolos são acomodadas às três Pessoas divinas:

Primeira parte — o Pai: a Primeira Pessoa divina e a obra da criação.
Segunda parte — o Filho: a Segunda Pessoa divina e o mistério da redenção humana.
Terceira parte — o Espírito Santo: a Terceira Pessoa divina, cabeça e fonte de nossa santidade.

Prefácio (Proêmio) Artigo I