Prefácio (Proêmio)
No qual se trata da necessidade dos Pastores na Igreja, de sua autoridade e ofício, e dos principais capítulos da Doutrina Cristã.
1 e 2. A Necessidade da Revelação e o Dom da Fé
[1] O homem não pode, abandonado às suas próprias forças, alcançar a verdadeira sabedoria e conhecer com certeza os meios para obter a bem-aventurança. Tal é a condição da mente e da inteligência humana que, embora, por si mesma, com grande trabalho e diligência, tenha investigado e conhecido muitas coisas pertencentes ao conhecimento das realidades divinas, nunca pôde, iluminada somente pela luz da natureza, conhecer ou alcançar a maior parte daquelas coisas pelas quais se adquire a salvação eterna, fim principal para o qual o homem foi criado e formado à imagem e semelhança de Deus.
Com efeito, “as coisas invisíveis de Deus, depois da criação do mundo, compreendidas pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; assim como o seu poder eterno e a sua divindade”1; porém aquele mistério, “que esteve escondido aos séculos e às gerações”2, ultrapassa de tal modo a inteligência humana que, se não tivesse sido manifestado aos santos — aos quais Deus quis, pelo dom da fé, fazer conhecer as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo —, jamais teria sido possível ao homem aspirar a tão elevada sabedoria.
[2] De onde procede tão excelente dom da fé. Ora, visto que “a fé vem do ouvido”3, é manifesto quão necessária sempre foi, para alcançar a salvação eterna, a obra e o ministério de um mestre legítimo e fiel. Pois está escrito: “Como ouvirão sem haver quem lhes pregue? E como pregarão eles, se não forem enviados?”4
E, na verdade, desde o princípio do mundo, Deus, clementíssimo e benigníssimo, nunca abandonou os seus; mas “muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente a nossos pais pelos profetas”5, e, segundo as circunstâncias dos tempos, mostrou-lhes um caminho certo e direto para a bem-aventurança celestial.
1) Rm 1, 20.
2) Cl 1, 26-27.
3) Rm 10, 17.
4) Rm 10, 14-15.
5) Hb 1, 1. (Nota textual: a expressão latina multifariam multisque modis olim Deus loquens patribus in Prophetis corresponde a Hb 1,1).
3 e 4. Cristo, os Apóstolos e a Autoridade dos Pastores
[3] Cristo veio ao mundo para ensinar a fé, que os Apóstolos e seus sucessores depois propagaram. Mas, tendo Deus predito que daria um Mestre de justiça, para luz das nações, para que a sua salvação chegasse até às extremidades da terra6, “ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo Filho”7. E, por uma voz vinda do céu, da sua magnífica glória, ordenou que todos o ouvissem e obedecessem aos seus preceitos.8
Depois, o Filho deu “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e doutores”9, para anunciarem a palavra da vida, a fim de que não fôssemos como crianças flutuantes e levadas ao redor por todo o vento de doutrina10, mas, apoiados no firme fundamento da fé, fôssemos edificados como morada de Deus no Espírito Santo.11
[4] De que modo devem ser recebidas as palavras dos Pastores da Igreja. E, para que ninguém recebesse a palavra de Deus ouvida dos ministros da Igreja como palavra de homens, mas, como verdadeiramente é, como palavra de Deus12, o próprio Salvador quis que se atribuísse tamanha autoridade ao seu magistério que disse: “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos despreza, a mim despreza.”13
E quis que isto se entendesse não somente daqueles com quem então falava, mas também de todos aqueles que, por legítima sucessão, exerceriam o ministério de ensinar, aos quais prometeu estar presente “todos os dias até à consumação dos séculos.”14
6) Is 49, 6.
7) Hb 1, 2.
8) 2Pd 1, 17.
9) Ef 4, 11.
10) Ef 4, 14.
11) Ef 2, 22.
12) 1Ts 2, 13.
13) Lc 10, 16.
14) Mt 28, 20. (Referência doutrinal marginal: Concílio de Trento, Sessão XXIII, acerca do ministério e da sucessão legítima dos Pastores).
5 a 7. A Pregação contra os Erros e as Heresias
[5] Mesmo depois de manifestada a verdade, ainda hoje é necessário que os Pastores preguem a Palavra de Deus. Ora, como a pregação da palavra divina jamais deve cessar na Igreja, certamente neste tempo deve-se trabalhar com tanto maior zelo e piedade para que os fiéis sejam alimentados e fortalecidos pela doutrina sã e incorrupta, como por alimento de vida. Pois “muitos falsos profetas se levantaram no mundo”15, acerca dos quais diz o Senhor: “Eu não enviava estes profetas, e eles corriam; eu não lhes falava, e eles profetizavam.”16 E assim, por meio de doutrinas várias e estranhas17, procuravam corromper os espíritos dos cristãos.
Nisso, a impiedade deles, instruída em todas as artes de Satanás, chegou tão longe que parecia não poder ser contida dentro de limites determinados. E, se não nos apoiássemos naquela ilustre promessa do nosso Salvador, que declarou ter colocado tão firme fundamento à sua Igreja que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”18, haveria grande motivo para temer que, neste tempo, cercada de tantos inimigos por todas as partes, assaltada e combatida com tantos artifícios, pudesse sucumbir.
Pois, para não falarmos das mais nobres províncias que outrora conservaram piedosa e santamente a verdadeira e católica religião recebida de seus antepassados, mas que, abandonando agora o caminho reto, se desviaram a tal ponto que professam abertamente estar tanto mais próximas da piedade quanto mais se afastam da doutrina de seus pais, não existe região tão remota, lugar tão fortificado nem canto algum da república cristã em que esta peste não tenha procurado penetrar ocultamente.
[6] Os hereges procuraram sobretudo, por meio de catecismos, corromper as almas dos cristãos. Aqueles que se propuseram corromper as almas dos fiéis, compreendendo que de modo algum poderiam falar com todos pessoalmente e derramar em seus ouvidos palavras envenenadas, procuraram realizar o mesmo por outro meio e, com muito maior facilidade e extensão, disseminaram os erros da impiedade.
Com efeito, além daqueles grandes volumes por meio dos quais tentaram destruir a fé católica — contra os quais, por conterem heresia manifesta, talvez não fosse muito difícil acautelar-se —, compuseram também inúmeros pequenos livros, os quais, apresentando uma falsa aparência de piedade, é incrível com que facilidade enganaram as almas incautas dos simples.
[7] Foi necessário opor-se às pestilenciais palavras e escritos dos falsos profetas. Por esta razão, os Padres do Santo Concílio Ecumênico de Trento, desejando aplicar algum remédio salutar a tão grande e pernicioso mal, julgaram que não bastava definir contra as heresias do nosso tempo os pontos principais da doutrina católica. Entenderam ser necessário, além disso, estabelecer uma fórmula certa e um método para instruir o povo cristão desde os primeiros rudimentos da fé, que fosse seguido em todas as igrejas por aqueles que legitimamente desempenham o ofício de Pastor e Doutor.
15) 1Jo 4, 1.
16) Jr 23, 21.
17) Hb 13, 9.
18) Mt 16, 18.
8 e 9. O Propósito e a Origem deste Novo Catecismo
[8] Foi necessário, pela solicitude do Concílio Ecumênico e pela autoridade do Sumo Pontífice, propor aos Pastores um novo Catecismo. Muitos já haviam tratado deste gênero de matéria com grande louvor de piedade e doutrina. Todavia, aos Padres pareceu ser sobretudo conveniente que fosse publicado, pela autoridade do santo Concílio, um livro do qual os Párocos e todos aqueles a quem foi confiado o ofício de ensinar pudessem tirar preceitos seguros para a edificação dos fiéis.
Assim, como há “um só Senhor, uma só fé, um só batismo”19, houvesse também uma só regra e uma norma comum para transmitir a fé e instruir o povo cristão em todos os deveres da piedade.
[9] Nem todos os dogmas da nossa religião são tratados aqui minuciosamente. Portanto, embora muitas coisas pareçam pertencer a este assunto, ninguém pense que o santo Concílio tenha tido a intenção de explicar minuciosamente, num único livro, todos os dogmas da fé cristã, como costumam fazer aqueles que professam transmitir uma instrução completa de toda a religião. Isto, na verdade, seria uma obra quase infinita e pouco conforme ao propósito estabelecido.
Mas, como o Concílio se propôs instruir os Párocos e Sacerdotes encarregados da cura das almas no conhecimento das coisas que pertencem particularmente ao ministério pastoral e são acomodadas à capacidade dos fiéis, quis apresentar apenas aquilo que pudesse auxiliar o piedoso zelo dos Pastores, principalmente daqueles que não fossem muito versados nas questões mais difíceis das coisas divinas.
Por isso, antes de passarmos ao tratamento particular das matérias nas quais se contém a substância desta doutrina, a ordem exige que sejam expostas algumas coisas que os Pastores devem sobretudo considerar e conservar diante dos olhos, para que saibam a que fim devem dirigir todos os seus pensamentos, trabalhos e estudos e por que meio poderão mais facilmente conseguir aquilo que desejam.
19) Ef 4, 5.
10 e 11. O Fim da Doutrina e o Método de Ensino
[10] Visto que aqui se pretende instruir os Pastores das almas, o que devem eles considerar principalmente para desempenharem bem o seu ministério? A primeira coisa parece ser que se recordem sempre de que toda a ciência do homem cristão se encerra nisto — ou, antes, como disse o nosso Salvador: “A vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”20
Por isso, o trabalho do Doutor eclesiástico terá por principal objeto fazer com que os fiéis desejem de toda a sua alma “conhecer Jesus Cristo, e este crucificado”21, e estejam firmemente persuadidos e creiam com íntima piedade e religião que “nenhum outro nome foi dado aos homens debaixo do céu, pelo qual devamos ser salvos”22, pois ele próprio “é a propiciação pelos nossos pecados”23. Mas, visto que sabemos que o conhecemos se guardamos os seus mandamentos24, segue-se imediatamente — e está intimamente unido ao que acabamos de dizer — que o Pastor mostre também que a vida dos fiéis não deve ser passada no ócio e na indolência.
Pelo contrário, “aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou”25, procurando com todo o zelo a justiça, a piedade, a fé, a caridade e a mansidão. Pois Cristo “deu-se a si mesmo por nós, para nos remir de toda a iniquidade e purificar para si um povo aceitável, seguidor de boas obras”26, coisas que o Apóstolo manda aos Pastores ensinar e exortar.
E, tendo Nosso Senhor e Salvador não somente declarado, mas mostrado também pelo seu exemplo, que toda a Lei e os Profetas dependem da caridade27; e tendo igualmente confirmado o Apóstolo que “o fim do preceito é a caridade”28, e que “a caridade é o pleno cumprimento da lei”29, ninguém pode duvidar de que seja dever principal do Pastor empregar todo o esforço para que o povo fiel se inflame de amor para com a imensa bondade de Deus para conosco. Esta certamente experimentará aquele que puder dizer com o Profeta: “Que tenho eu no céu? E, fora de ti, que desejei eu sobre a terra?”30
Este é, sem dúvida, aquele “caminho ainda mais excelente”31 que mostrou o mesmo Apóstolo, dirigindo todo o método de sua doutrina e instrução para a caridade, “que nunca há de acabar”32. Por conseguinte, quer se proponha alguma coisa para crer, quer para esperar, quer para praticar, deve recomendar-se sempre de tal maneira a caridade de Nosso Senhor que todos compreendam que todas as obras de perfeita virtude cristã não têm outra origem senão a caridade, nem devem ordenar-se a outro fim que não seja a caridade.
[11] Não basta que os Pastores tenham em vista aqueles dois fins ao ensinar; devem também acomodar-se à capacidade de cada pessoa. Como, porém, em toda matéria ensinada importa muito o modo pelo qual se ensina, isso deve ser considerado de máxima importância na instrução do povo cristão. Deve-se atender à idade, inteligência, costumes e condição dos ouvintes, para que aquele que exerce o ofício de ensinar se faça tudo para todos, a fim de ganhar todos para Cristo33; e possa mostrar-se ministro fiel e dispensador.34 E, como servo bom e fiel, seja digno de ser estabelecido pelo Senhor sobre muitas coisas.35
Com efeito, alguns são como meninos recém-nascidos36; outros começam a crescer em Cristo; outros, enfim, já chegaram de algum modo à idade perfeita. É, portanto, necessário considerar cuidadosamente a quem se deve dar leite e a quem alimento sólido37... “até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da idade completa de Cristo.”38 O Apóstolo mostrou em si mesmo que todos devem observar isto, quando declarou ser “devedor aos Gregos e aos Bárbaros, aos sábios e aos ignorantes.”39
Depois de terem alimentado com alimento espiritual as almas daqueles cujos sentidos já estão exercitados, não deixem entretanto morrer de fome os pequeninos: “Os meninos pediram pão, e não havia quem lho repartisse.”40 Nem deve o zelo de ninguém pelo ensino diminuir pelo fato de ser necessário tratar algumas vezes de matérias que parecem simples e humildes... Pois quem não será impelido pela caridade de Cristo a fazer-se pequeno no meio dos seus irmãos e, como uma mãe que cria e acaricia os seus filhos41, desejar tão vivamente a salvação do próximo que queira comunicar-lhes “não somente o Evangelho de Deus, mas ainda as próprias vidas”?42
20) Jo 17, 3.
21) 1Cor 2, 2.
22) At 4, 12.
23) 1Jo 2, 2.
24) 1Jo 2, 3.
25) 1Jo 2, 6.
26) Tt 2, 14.
27) Mt 22, 40.
28) 1Tm 1, 5.
29) Rm 13, 10.
30) Sl 72, 25 [Vulgata]; Sl 73, 25 [Numeração hebraica].
31) 1Cor 12, 31.
32) 1Cor 13, 8.
33) 1Cor 9, 19-22.
34) 1Cor 4, 1-2.
35) Mt 25, 21.23 (Nota crítica: Na margem da edição fotografada parece constar Mt 25,25, mas a expressão latina serve bone et fidelis... super multa te constituam corresponde a Mt 25,21 e 23).
36) 1Pd 2, 2.
37) 1Cor 3, 2; Hb 5, 12.
38) Ef 4, 13.
39) Rm 1, 14.
40) Lm 4, 4.
41) 1Ts 2, 7.
42) 1Ts 2, 8.
12 e 13. As Fontes da Doutrina e as Quatro Partes do Catecismo
[12] Tendo Deus retirado de nós a sua presença visível, os Pastores devem haurir a sua palavra das Escrituras e das Tradições. Toda a matéria da doutrina que deve ser transmitida aos fiéis está contida na Palavra de Deus, a qual se encontra na Escritura e nas Tradições. Por isso, os Pastores ocupar-se-ão dia e noite na meditação destas coisas, lembrando-se daquela advertência de São Paulo a Timóteo: “Aplica-te à leitura, à exortação e ao ensino.”43 Pois: “Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça...”44
Mas, como as coisas divinamente transmitidas são muitas e variadas... nossos antepassados, com grande sabedoria, reduziram toda a força e a substância da doutrina da salvação a quatro partes: o Símbolo dos Apóstolos, os Sacramentos, o Decálogo e a Oração Dominical.
- Tudo aquilo que deve ser crido segundo a disciplina da fé cristã encontra-se contido na doutrina do Símbolo.
- As coisas que são sinais e instrumentos para alcançar a graça divina estão compreendidas na doutrina dos sete Sacramentos.
- O que pertence às leis, cujo fim é a caridade45, está descrito no Decálogo.
- Tudo aquilo que os homens podem desejar, esperar ou pedir de modo salutar está contido na Oração Dominical.
[13] De que modo os Párocos devem unir a explicação do Evangelho à explicação do Catecismo. Por isso pareceu conveniente advertir os Párocos de que, sempre que ocorrer a necessidade de explicar algum lugar do Evangelho ou qualquer outra passagem da Sagrada Escritura, compreendam que o sentido dessa passagem está contido em algum daqueles quatro capítulos acima mencionados; e recorram a ele como à fonte doutrinal.
Por exemplo, se houver de explicar-se o Evangelho do primeiro Domingo do Advento: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas...”46, aquilo que pertence a esta matéria foi ensinado no artigo do Símbolo: “Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. Assim, tomando dali o que é necessário, o Pastor explicará ao povo fiel, numa só e mesma instrução, tanto o Símbolo como o Evangelho.
Nós, porém, seguindo a autoridade dos Padres, os quais, ao iniciarem os homens em Cristo Nosso Senhor e ao instruí-los em sua disciplina, começavam pela doutrina da fé, julgamos conveniente explicar em primeiro lugar aquilo que pertence à fé.
43) 1Tm 4, 13.
44) 2Tm 3, 16-17.
45) 1Tm 1, 5. (Referência doutrinal marginal: Concílio de Trento, Sessão IV, sobre a Sagrada Escritura e as Tradições apostólicas).
46) Lc 21, 25.